Diz-me Ela, em jeito de voz da consciência, que devem ser escritas umas linhas sobre este Homem (Randy Pausch). Assinto com um trejeito de cabeça de quem já antes o tinha pensado mas não concretizado.
Oferece-me a sua modesta casa para que o faça, e aí estava lida a sentença: Fá-lo-ei por ti, por mim e por todos aqueles que por essa via possam ter acesso à palavra do Randy.

Tomo a liberdade, como já ficou claro, de o tratar pelo seu primeiro nome: afinal já nos conhecemos há algum tempo e até já o apresentei a vários Amigos.
J. depois de lhe apresentar Randy teve a gentileza de me oferecer, num episódio menos feliz da nossa amizade, aquela que deveria ser a leitura obrigatória para todos nós e em especial para os mais jovens: A Última Aula1.

Randy apresenta-se na sua página pessoal num único parágrafo que é um exacto resumo de si mesmo:

Randy Pausch is a Professor of Computer Science, Human-Computer Interaction, and Design at Carnegie Mellon, where he was the co-founder of Carnegie Mellon’s Entertainment Technology Center (ETC). He was a National Science Foundation Presidential Young Investigator and a Lilly Foundation Teaching Fellow. He has done Sabbaticals at Walt Disney Imagineering and Electronic Arts (EA), and consulted with Google on user interface design. Dr. Pausch received his bachelors in Computer Science from Brown University and his Ph.D. in Computer Science from Carnegie Mellon University. He is the author or co-author of five books and over 70 articles, is the director of the Alice (www.alice.org) software project, and has been in zero-gravity.

Dr. Pausch é aquele tipo de doutor que não trata as pessoas (assim dizia a sua Mãe). Certamente que não, mas teria todo o gosto de dizer à família que ensinou, e continua a ensinar com o seu legado, muita gente.
Formado em Ciências da Computação na Universidade de Brown e com doutoramento na mesma área na Universidade Carnegie Mellon, leccionava nesta o curso de Interacção Homem – Máquina e Design.
Parte do seu legado profissional é distribuído de forma gratuita e pode ser encontrado em www.alice.org.

Importante para mim e certamente para Ela que me incitou a escrever estas linhas, é levar quem lê este artigo ao conhecimento do que foi A Última Aula e para o que nela Randy nos chamou a atenção.
Não me permite a habilidade com as palavras resumir de forma graciosa o grande ensinamento por trás desta aula onde, durante pouco mais de uma hora, Randy nos provou a importância de sonhar para viver plenamente. Prova disso é a referência “… and has been in zero-gravity“, no seu parágrafo de apresentação.

Uma última aula é concedida a alguns professores como oportunidade de enaltecerem os pontos que mais valorizariam do seu legado pessoal caso a sua vida estive a chegar ao fim.
Quando foi convidado Randy tinha estimados entre dois a cinco meses de vida e lidava com um cancro pancreático.

Tenho um problema de engenahria.
Embora no geral esteja em muito boa forma física, tenho dez tumores no fígado e apenas alguns meses de vida.
Sou pai de três filhos pequenos e casado com a mulher dos meus sonhos. Embora pudesse facilmente cair num estado de automiseração, isso nunca seria bom, nem para mim nem para eles.
Assim sendo, como passar o meu tempo bastante limitado?
(..)
Estas aulas são habitualmente gravadas em vídeo. Sabia o que estava a fazer nesse dia. Sob o pretexto de uma sessão académica, estava a tentar guardar-me numa garrafa que um dia fosse dar à costa para os meus filhos. Se fosse pintor, ter-lhes-ia pintado um quadro. Se fosse músico, teria composto uma música. Mas sou professor, por isso dei uma aula.

Como mesmo “Um leão ferido ainda quer rugir”, subiu ao estrado em frente de uma plateia de quatrocentas pessoas que o aguardavam expectantes.

Não estava de fato. Não tinha gravata. Não fazia tenção de subir ao placo com um qualquer casaco de tweed académico, com cotoveleiras de cabedal. Em vez disso, decidira fazer a apresentação com a vestimenta de sonho infantil mais apropriada que consegui encontrar no roupeiro.
Admito que à primeira vista parecia um daqueles indivíduos que recebem o nosso pedido no drive-through de um restaurante de comida rápida. Mas, na verdade, o dístico no meu pólo de manga curta era um emblema de honra, pois tratava-se daquele usado pelos Walt Disney Imagineers: os artistas, guionistas e engenheiros que criam as fantasias dos parques temáticos. Em 1995 passei seis meses sabáticos como imagineer. Foi um dos pontos altos da minha vida, a concretização de um sonho de infância.

O Homem que tirou “A lotaria dos pais”, embora nunca tenha chegado à NFL, chegou à Gravidade Zero, escreveu para a World Book Encyclopedia… ganhou à grande.
Mais, a garrafa que um dia esperava que fosse dar à costa para os filhos está ao dispor de todos; aqui e agora:

Muitos doentes de cancro dizem que a doença lhes deu uma estima nova e mais profunda pela vida. Alguns até afirmam que se sentem gratos pela doença. eu não possuo uma tal gratidão pelo meu cancro, embora, sem dúvida, me sinta grato por saber antecipadamente que vou morrer. Para além de poder preparar a minha família para o futuro, esse tempo deu-me a oportunidade de ir a Canegie Mellon e fazer a minha última aula. Num certo sentido, permitiu-me “deixar o campo pelo meu próprio pé”.
(…)
A minha vida perder-se-á para o cancro do pâncreas.
Duas organizações com as quais tenho trabalhado e que se dedicam a combater esta doença são:
The Pancreatic Cancer Action Network
www.pancan.org

The Lustgarten Foundation
www.lustgaten.org

1 Tradução disponível em Português na Bertrand Livreiros.