Life is the art of drawing sufficient conclusions from insufficient premises.
Samuel Butler

Era a praxe, era a praxe…

Posted: September 20th, 2008 | Author: PauloASilva | Filed under: blog, capítulos, sociedade
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“Neste quadro, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, sempre que tenha notícias da prática de ilícitos nas praxes, dela dará imediato conhecimento ao Ministério Público, bem como lançará mãos dos meios aptos a responsabilizar - civil e criminalmente, por acção ou omissão - os órgãos próprios das instituições do ensino superior, as associações de estudantes e ainda quaisquer outras entidades que, podendo e devendo fazê-lo, não tenham procedido de modo a procurar evitar os danos ocorridos.”

“Joaquim”, chamou.

“Meu capitão?”

“Daqui a um bocado chega aí um oficial novo”, anunciou-lhe. “Vamos fazer-lhe a recepção ao caloiro. Avisa a malta para se preparar para o número do costume.”

“Imediatamente, meu capitão”, disse Joaquim, fazendo continência antes de descer em corrida pela segunda linha.

Afonso e Mascarenhas abandonaram o posto de comando da segunda companhia de Infantaria 8, em Grants, meteram pela Winschester Road e apanharam a Rue Tilleloy até Baluchi Road, a trincheira de comunicação por onde seguiram até virarem em Cardiff Road e chegarem à linha de apoio, no sector de Euston Post. Aí encostaram-se ao muro de pedra e aguardaram pelo recém-chegado oficial.

O capitão Resende apareceu no local dez minutos depois, conduzido pela ordenança do major Mascarenhas. Afonso e Mascarenhas viram-no aproximar-se pela longa Rue de la Bassée e apreciaram-no com mal disfarçado prazer e antecipação. A farda vinha imaculadamente lavada, o capacete de ferro impecavelmente colocado e apertado debaixo do queixo, a máscara antigás pendurada ao pescoço e muito direita como requerido pelo regulamento, o porte majestoso e altivo, as botas reluzindo de graxa, embora já com alguma lama na sola. Apenas a barriga proeminente estragava a majestosa postura marcial.

Quando se encontraram, os três fizeram continência e depois apertaram as mãos.

Então, capitão, preparado para a vida nas trinchas?“, quis saber Afonso.

Nem por isso“, disse Resende. “Ainda há quinze dias passeava eu no Rossio e, veja lá, estou agora aqui, de surpresa, sem preparação alguma, pus-me na guerra enquanto o diabo esfrega um olho”.

“Homessa!”, exclamou Mascarenhas. “No Rossio? O que fazia vossemecê no Rossio?”

“Bem”, atrapalhou-se Resende. “Passeava, suponho. Ia até lá acima à Casa Havaneza comprar tabaco.”

“À Havaneza?”, admirou-se Mascarenhas. “Mas donde é vossemecê?”

“Eu sou de Paço d’Arcos.”

“De Paço d’Arcos?”, surpreendeu-se ainda mais o major. “Mas o que é que vossemecê está a fazer no 13, que é uma unidade de Trás-os-Montes? Você devia era estar na 6.ª Brigada, a de Lisboa, onde se encontram o 1, o 2, o 5 ou o 11.”

“Pode parecer-lhe um pouco estranho, meu major, mas não tenho nada a ver com Trás-os-Montes e fui colocado de emergência no 13″, justificou-se o capitão. “Vou para onde me mandam.”

O major Mascarenhas afagou o bigode, pontiagudo nas extremidades.

“É a porra da falta de oficiais”, comentou para Afonso. “Como já viemos desfalcados e vamos perdendo homens por causa dos boches e das doenças, até mandam lisboetas para os nossos batalhões transmontanos.”

“Ó meu major”, observou Resende. “Quem o ouvir falar até parece que me desconsidera…”

“De modo algum, de modo algum”, apressou-se a esclarecer Mascarenhas. “Seja muito bem-vindo ao Batalhão de Infantaria 13 e às trincheiras do CEP. Nós estamos estacionados em Ferme du Bois e aqui o capitão Brandão, que é do 8, de Braga, encontra-se a defender a linha Neuve Chapelle. O 8 pertence à Barrigada do Minho.”

“Barrigada do Minho?”, admirou-se Resende.

“Engraçadinho…”, comentou Afonso, rolando os olhos.

Mascarenhas riu-se.

“A malta chama Barrigada do Minho à brigada do Minho. Mas, como vê, os minhotos ficam todos nicados.”

Os três oficiais e a ordenança desceram pela Rue de la Bassée e foram apanhar a Edgware Road, meteram por esta até, lá ao fundo, galgarem pela Baluchi Trench. Afonso adiantou-se ligeiramente, conduzindo-os para a linha Bdo seu sector, onde, se Joaquim cumprira bem as instruções que lhe dera, os aguardava a recepção ao caloiro.

Quando desembocaram na linha B, Afonso avisou, induzindo o recém-chegado em erro: “Estamos na linha da frente , o inimigo encontra-se a duzentos metros.”

Era mentira, claro, mas a informação tinha sido transmitida em tom grave e impunha respeito. uma voz de sentinela troou nos ares.

“Quem vem lá?”

Afonso encheu os pulmões.

“Mijo!”, gritou. “Contra-senha?”

“Merda!”

Afonso voltou-se para trás e olhou para Resende, que o fixava de olhos esbugalhados.

“Vamos, podemos passar.”

Resende esta perplexo.

“Arre!”, exclamou. “Vocês têm o diabo de umas senhas…”

“Chiiiu!”, indicou Afonso, o dedo à frente da boca exigindo silêncio.

“Silêncio total!”, ordenou Mascarenhas, reforçando a mensagem.

O capitão Resende encolheu-se no sobretudo, intimidado com o ambiente opressivo. Uma rajada de metralhadora rasgou o ar. O facto de ser uma Lewis portuguesa, previamente instruída para abrir fogo na sequência de um sinal de Joaquim, não foi comunicado ao recém-chegado. Mascarenhas deu um brutal encontrão ao capitão Resente, este patinou desesperadamente no estrado até tombar de joelhos na lama. Os outros oficiais e respectivas ordenanças encostaram-se também ao parapeito, agachados. Nova rajada de metralhadora.

“Capitão!”, chamou Mascarenhas, dirigindo-se a Resende. “Deite-se ali, depressa!”

Ali era uma poça de lama. Resende olhou, ainda hesitou, mas pensou que estava em terra estranha e que os companheiros sabiam o que faziam e por isso atirou-se em força para a lama. Mascarenhas e Afonso viram-no rebolar-se com entusiasmo pela poça viscosa, a impecável farda lavada transformada numa papa repugnante, e viraram a cara para rirem em silêncio, os ombros em convulsões de gargalhadas reprimidas. Quando recuperaram, Afonso fechou os olhos e, num titânico esforço para não se desmanchas, encheu os pulmões de ar e gritou baixinho: “Boches! Aos abrigos!”

O grupo desapareceu num ápice pelo emaranhado de trincheiras e buracos, deixando Resende só, chapinhando na lama. O capitão virou-se para todos os lados e não viu ninguém. Com os olhos muito abertos, aterrorizado, olhou para cima à procura do temível inimigo, o boche maldito, ergueu-se e encostou-se ao parapeito, encurralado, sem saber o que fazer, a mão trémula, sacando o revólver do coldre. Durou alguns longos segundos este momento de suprema desorientação e logo Afonso reapareceu.

“Falso alarme”, explicou sumariamente. “Venha por aqui.”

O capitão Resende suspirou de alivio e seguiu-o, transpirando apesar do frio, Mascarenhas e as duas ordenanças a juntarem-se a eles, todos com cara de caso. Passaram por uma árvore carbonizada e Afonso apontou para o tronco.

“Bata aqui!”, disse a Resende.

“Como?”

“Bata aqui, homem!”, ordenou.

O capitão caloiro, obediente, embora sem perceber o propósito da agressão ao tronco queimado, levantou a bengala e bateu na árvore. O impacto produziu um surpreendente som metálico e o tronco soltou um berro.

“Cuidado com isso, suas bestas!”

Resende deu um salto, estupefacto. A árvore falava. Afonso e Mascarenhas desataram a rir.

“Ó homem, isto é um posto de observação, camuflado em árvore”, explicou Mascarenhas. “Chama-se Betty e é uma das árvores de ferro que para aqui temos.”

Vocês estão-me a gozar…

Então o que queria vossemecê?“, justificou-se Afonso. “Esta é a nossa tradicional recepção ao caloiro aqui nas trinchas, diga lá se não é uma maravilha?

Vão-se cardar!

Os dois oficiais riram-se.

Deixe lá que caem todos“, comentou Mascarenhas. “Quando entrámos pela primeira vez nas trinchas, os gajos da 1.ª Divisão fizeram-nos a mesma coisa. Venha daí até ao posto de comando para bebermos um vinho do Porto e lamber as feridas.

E lá foi o capitão Resende, o bigode desalinhado, a farda numa amálgama de lama escura e húmida, as botas cobertas de terra, arrastando-se penosamente pela trincheira suja e malcheirosa, na esperança de saborear um doce cálice com sabor a Portugal.

in A Filha do Capitão - José Rodrigues dos Santos

O negrito na transcrição da passagem do livro “A Filha do Capitão” de José Rodrigues dos Santos é de minha autoria e vem a propósito do comunicado do Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Sr. José Mariano Gago, relativamente às praxes académicas.

Em baixo deixo dois marcos no tempo que recordo com saudade:

 

Praxe no dia da inscrição

Praxe no dia da inscrição

Na primeira fotografia (à esquerda) minutos depois de me oficializar como aluno da Universidade de Évora e sócio do Núcleo de Estudantes de Matemática.

 

Foto de grupo no jantar de despedida

Foto de grupo no jantar de despedida

À direita uma fotografia de grupo no jantar em que disse adeus a muitos daqueles que guardo no coração.

Para que fique registado estão nesta companheiros de praxe e praxantes que muito importantes foram/são na minha vida: a vocês o maior obrigado do mundo.